Luiz Antonio Fayet, da Confederação Nacional da
Agricultura, critica aumento da alíquota

Fernanda Balbino
Da Redação

A decisão de reajuste de 3% para a 5% da alíquota do Imposto Sobre Serviços (ISS) de atividades portuárias terá consequências que vão afetar diretamente a balança comercial brasileira. A opinião é do consultor de infraestrutura e logística da Confederação Nacional da Agricultura, Luiz Antonio Fayet. Segundo o especialista, as exportações de commodities não suportarão o aumento do custo operacional.

Há duas semanas, as prefeituras de Santos e Guarujá encaminharam, a seus legislativos, projetos de lei para reajustar o ISS apenas para atividades portuárias. A Câmara de Santos aprovou o texto na última sexta-feira e ele deve ser sancionado pelo prefeito Paulo Alexandre Barbosa nos próximos dias. Já o Legislativo de Guarujá começará a debater a medida na próxima terça-feira.

Segundo as prefeituras, o aumento da alíquota pode garantir um acréscimo na receita anual de R$ 64 milhões e R$ 40 milhões aos municípios, respectivamente. No total, 320 empresas serão afetadas.

A questão é polêmica. De um lado, os operadores portuários criticam a medida e apontam o risco de fuga de cargas e até de demissão dos trabalhadores portuários. Já as administrações municipais apontam a necessidade de aumentar a arrecadação.

Afeta as exportações

Para Fayet o problema vai além das rotinas que envolvem a atividade portuária no município. Isso porque, o reajuste do ISS será somado aos outros custos operacionais da exportação brasileira.

Enquanto uma tonelada de soja custa US$ 450, são gastos US$ 120 com a logística interna, que inclui o transporte da zona produtora, no Mato Grosso, até o cais santista. No caso do milho, os custos são ainda maiores, já que a carga vale US$ 200 e parte da mesma região.

Isso faz com que, em alguns casos, as margens de rentabilidade da cadeia produtiva sejam muito pequenas. O problema faz com que alguns produtores deixem de plantar, o que caracteriza um abortamento de produção.

“As prefeituras estão olhando os seus umbigos. O imposto é pequenininho, mas a soma desses pequenininhos dá esse bolo brutal de custos da logística interna. E acontece o que é pior. Ao abortar a possibilidade de aumentar a produção e a exportação, eu estou abortando elementos da economia interna do País”, destacou o especialista.

Custos logísticos altos

Para Fayet, problemas como o alto custo da logística brasileira e a grande carga tributária fazem com que o Brasil tenha custos logísticos mais de quatro vezes maiores do que os Estados Unidos e a Argentina, que são os grandes produtores mundiais de soja e milho.

Além das consequências no cenário econômico nacional, o cais santista também será altamente impactado pelo reajuste do ISS, segundo Fayet. Na sua visão, a medida, somada a outras questões, podem prejudicar o complexo santista.

“Uma série de coisas somadas vai encarecer, principalmente, o Porto de Santos. Isso vai desde problemas da relação trabalhista, no caso de estufagem de contêineres, até os problemas tributários e os problemas de infraestrutura. Cada vez que nós encarecermos a operação em Santos, estamos expulsando possíveis fluxos de exportação”.

Visão estreita

Com isso, o especialista da CNA acredita que reajustar o ISS da atividade portuária é uma visão muito estreita do problema.

“Santos é o que é pelo que passa aí. Se as mercadorias não passam aí, Santos não teria o volume de emprego que tem. Considero uma visão muito miúda do que realmente é a realidade. O raciocínio é provinciano. Estamos tratando de uma questão muito maior”.

Além disso, ele pontua o fato de que outros portos oferecem isenções de impostos com o objetivo de alavancar a economia.

“O mundo não está pagando a conta do Brasil só porque uma Prefeitura tem interesse em aumentar a sua arrecadação. Esta questão é que tem que ser vista pelas autoridades daí. E eu espero, particularmente, que os políticos da região se atentem para isso”.

Em consequência, o consultor da CNA destaca o impacto do reajuste no cenário econômico nacional.

“Se eu tirar o agronegócio, a balança comercial entra em prejuízo porque o resto da economia é deficitária. As pessoas custam a enxergar. A questão individualizada é muito baratinha, mas quando você soma os baratinhos, arrebenta a economia brasileira”.

Fonte: Jornal “A Tribuna” – 10.12.2017 – Porto & Mar – pagina A-15

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Reprodução de notícia publicada para conhecimento das Associadas